Capítulo Um

Ventos do sul

1813 - 1821

Aletra é firme e apertada, mas não uniforme. Alguns sublinhados e algumas maiúsculas expandem-se até a linha superior ou inferior de um texto ágil e fluente. O homem que molha a pena no tinteiro por seguidos dias já tem a barba e os cabelos grisalhos e uma expressão cansada. O que sai em sucessivas folhas de papel é um relato minucioso e metódico de uma trajetória sem igual em seu país.

O personagem diante da escrivaninha chama-se Irineu Evangelista de Sousa. Carrega um título de nobreza imperial, Visconde de Mauá, conferido pelo Imperador destas terras. Durante vários anos fora o homem mais rico do País, dono de pelo menos 24 empresas, com interesses no Brasil, na Inglaterra, na França, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e no Chile. Enfrentara dificuldades imensas ao longo de seus 65 anos de vida. Negociara com presidentes, ministros, deputados, senadores, traficantes de escravos, banqueiros, juízes, advogados, mercadores de toda ordem e um sem número de personagens. Agora, no segundo semestre de 1878, faz um acerto de contas consigo mesmo.

Ao lado das páginas em branco há numerosas anotações e tabelas. O ambiente é de relativa tranqüilidade. Está em sua fazenda Sapopemba, na zona oeste da capital do Império, o Rio de Janeiro. Um século depois, a área seria densamente urbanizada e se chamaria bairro Deodoro.

Com cuidado, ele começa:
Na primavera da vida havia eu já adquirido, por meio de infatigável e honesto labor, uma fortuna, que me assegurava a mais completa independência.

O texto tem por título Exposição do Visconde de Mauá aos credores de Mauá & Cia. e ao público. Não está claro quem são os destinatários, mas é quase certo que o texto se dirige à elite do Império e aos membros da Associação Comercial do Rio de Janeiro.

Mauá não faz literatura. Escreve direto e seco, com poucos adjetivos. Sua prosa é a de um homem prático. Tem um objetivo em mente: Salvar do naufrágio aquilo que para mim vale mais que quanto ouro tem sido extraído das minas da Califórnia – um nome puro. E alerta: Persisto em acreditar que o infortúnio não é crime.

Possivelmente, ao iniciar aquelas linhas, ele tenha se lembrado do percurso seguido até ali. Começara no extremo sul do País e percorrera trilhas não planejadas previamente.

Irineu Evangelista de Sousa nasceu em 28 de dezembro de 1813, na freguesia de Nossa Senhora do Arroio Grande, distrito de Jaguarão, quase nos limites da capitania do Rio Grande do Sul com a Província Cisplatina, atual Uruguai. Em fins do século xviii, a fronteira gaúcha era uma espécie de zona cinza. Ninguém sabia ao certo onde terminava a Província Cisplatina e onde começava o Rio Grande do Sul.

Era uma região de vastas campinas e de colonização majoritariamente açoriana. Algo aparentado às descrições de Simão Lopes Neto (1865–1916), feitas em seus Contos gauchescos e lendas do sul:
Estes campos eram meio sem dono, era uma pampa aberta, sem estrada nem divisa; apenas os trilhos do gado cruzando-se entre aguadas e querências.¹

A base da propriedade rural era a estância, vastas extensões de terra destinadas especialmente à criação de gado. A isso se agregaria, na virada do século, a produção do charque em larga escala. Era uma variante da carne-seca e da carne-de-sol típicas do nordeste brasileiro, introduzida na região pelo cearense José Pinto Martins, em uma propriedade situada às margens do Rio Pelotas, por volta de 1780. Logo, o charque tornou-se o principal produto da economia gaúcha e a base da alimentação dos escravos e das camadas mais pobres da população em todo o País. Entre 1813 e 1822 – durante a infância de Irineu – o charque respondia por cerca de 55% das exportações da então Província. As regiões do charque eram as que mais se valiam do trabalho escravo. Em 1819, esse contingente chegou a um terço da população local.

Havia, além disso, a pequena propriedade familiar, instalada ao redor dos florescentes núcleos urbanos. Ali, um branco pobre e sem terra chegava, no máximo, a peão tropeiro, um trabalhador livre não-assalariado. Recebia do estancieiro, de forma irregular, comida e o direito ao uso de um pedaço de terra para si e sua família.² Este personagem ancestral figuraria também nas páginas de Simão Lopes Neto:
Esse gaúcho desabotinado levou a existência inteira a cruzar os campos da fronteira: à luz do sol, no desmaiado da lua, na escuridão das noites, na cerração das madrugadas (…); ainda que chovesse reiúnos acolherados ou que ventasse como por alma de padre, nunca errou vau, nunca perdeu atalho, nunca desandou cruzada!

 

Tragédia familiar

 

Os pais de Irineu eram pequenos proprietários. João Evangelista de Sousa viera de Paranaguá e casara-se em 1810 com Mariana de Jesus Baptista. O avô materno, João Baptista de Carvalho, era o que se chamaria de “sujeito da pá virada”. Morreu aos 100 anos de idade, de um tombo de cavalo, conforme histórias familiares.³

Tudo indica que o casal não passava grandes apertos. Ganhavam para viver. Tiveram, antes de Irineu, uma filha, Guilhermina, nascida em 1811.

João Evangelista viajava constantemente, tocando gado para vender. Em uma noite de 1819, o homem se desentendeu com outro tropeiro e foi assassinado. Mariana ficou viúva aos 28 anos, sem recursos e com duas crianças para criar, uma de sete e outra de cinco anos.

Em 1821, Mariana conheceu novo pretendente. O sujeito impôs uma condição: não queria os filhos por perto. Sem saída, a mãe encontrou duas soluções complicadas. Guilhermina, aos dez anos, casou-se às pressas com um certo José Machado de Lima. Para convencer a menina ao noivado de ocasião, os presentes incluíram algumas bonecas de pano. Quanto a Irineu, um destino incerto o aguarda. Um tio materno, José Baptista de Carvalho, capitão de um barco a vela, o levaria para a capital do Império, para tentar a sorte. O parente seguiria viagem rumo à Índia. Recomendaria o sobrinho a algum conhecido.

Na despedida, entre abraços e lágrimas, Irineu promete às duas mulheres trabalhar e estudar para mais tarde sustentá-las.

A viagem duraria algumas semanas. De tudo, apenas uma certeza: o Rio Grande perdera um futuro tropeiro.